2015 / Contos

Achtung baby by Irene Mónica Leite

bono

Nos meandros da loucura : Deus existe?

Guilherme é um jovem feliz, certinho no trabalho , mas que um dia decide dar uma volta de 180 graus à sua vida. Uma viagem inolvidável que tanto iluminou como ofuscou o seu caminho.

I

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-És crente, Guilherme?, perguntou a namorada Leonor.
-Que pergunta, Leonor! Claro que sim. Também acredito no destino e que nada acontece por acaso. Deus nunca me abandonará.
-Gosto dessa segurança nas tuas palavras . Num mundo tão louco, tão incerto, é bom assistir a casos onde a esperança não se perde.
-Não percebi o porquê da tua questão.
-Apenas curiosidade….
(torce o nariz)-Okay, vou fazer de conta que acredito! E beija a namorada ternamente na testa.
Guilherme era um rapaz pacato. Foi sempre calmo na escola e na universidade um excelente aluno.

So Cruel

Eu estava em pânico .Era o primeiro surto piscótico. Era uma doença que se manifestava. Bipolaridade. Era esse o nome do pesadelo em que me encontrava.
Leonor assistia ao “espectáculo” tenebroso e cedo se apercebeu de que não iria aguentar a pressão.
Eu dançava desenfreadamente como um Ian Curtis louco, queria tirar a roupa e beijava carinhosamente toda a gente. Os médicos não conseguiam fazer um diagnóstico claro da doença do foro psicológico que me afetava. Um internamento num hospital psiquiátrico foi a solução.
-Não me recordo de nada do que se passou! Será que fui agredido? Será que os médicos foram voiolentos?
-Eras calmo. Ninguém foi capaz de te fazer mal . Gritavas era constantemente por um nome: Maria , o que irritava naturalmente a Leonor.
-Imagino. Agora percebo o porquê dela estar tão fria, distante . A minha vida acabou!
-Não digas isso, Guilherme. Só agora começou.
Eu estava em pânico obviamente . Abandonei os meus estudos , o meu trabalho, a namorada . Só ganhei uma mãe! Recordo-me bem do ultimo dia no hospital. A alegria dela ao saber que eu ia sair daquele lugar.
Deus existe?
Como é que Deus existe? Abandonou-me na fase em que precisava mais da sua ajuda. Estou sem chão, sem raízes. É como se o mundo tivesse desabado!
-Tens que ir às reuniões de apoio no hospital!
-Para quê? Tipo alcoólicos anónimos? Deprimir-me mais?!
-Não podes pensar assim. A tua vida tem que voltar a entrar nos eixos. E não vai ser em casa a ver a vida a passar que as mudanças acontecem! Corre, luta, vive! Tens 22 anos.
-É fácil falar mãe , mas não foste tu que estiveste internada. Ainda bem que não me lembro de praticamente de nada!
-Deus vai proteger-te!
-Deus, mas qual Deus? Deus não existe!
-Não digas blasfémias.

Until the end of the world

Agora entendo o que a minha mãe dizia . Realmente eram blasfémias. Mas eu não queria saber. Tentei, a muito custo, retomar a minha vida . Matriculei-me de novo na faculdade e conheci lá uma rapariga, a Diana. Era o oposto da Leonor. Como da água para o vinho! A Diana parecia que tinha o Diabo no corpo. Comecei a dar em doido só de pensar em nela. Ela era alta, roliça , de uns vivos olhos verdes que queimavam a minha face. Hoje sei que era o abismo a aproximar-se , mas na altura era uma paixão a exaltar-se.

Continua….

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